Este foi o tema de uma formação
voltada para a qualificação e atualização de professores coordenada por mim, em
julho de 2013, no Município de São Nicolau, Rio Grande do Sul, fronteira com a
Argentina.
O Município de São Nicolau, primeira
querência missioneira da banda oriental do estado, distantes nove horas do meu
dia a dia na Universidade, possui aproximadamente sete mil habitantes. E foi no
recesso escolar (do meio do ano) que professores se reuniram a fim de repensar a
prática docente, na constante busca de qualificação dos seus trabalhos.
Minhas questões surgiram já de
imediato ao convite. Quais os desafios que a comunidade de São Nicolau poderia
ter sobre o tema corporeidade? E sobre sexualidade? O que a escola, direção e
professores esperavam de mim? Como os alunos e familiares seriam impactados positivamente
com o meu trabalho naquela formação? A provocação estava feita!
Meu primeiro passo foi identificar
as características sociais e culturais mais marcantes da região relativos ao
tema. Ou seja, tentar responder previamente as seguintes indagações:
- Quais os principais hábitos e valores relacionados às
vivências corporais desta comunidade?
- Como esta comunidade se relaciona com os assuntos globais
e nacionais relativos ao tema corpo e sexualidade?
- Quais os reais conhecimentos sobre a temática e como eles
se articulam com o conjunto de valores e práticas educacionais vividas no dia a
dia?
As primeiras duas respostas, consegui
através da internet e por contatos informais com pessoas da região. A terceira eu
busquei, no início da oficina, através de dinâmicas e jogos corporais
descontraídos e eficientes. Atividades de recreação, presentes em currículos de
Licenciatura em Educação Física e propositalmente adaptadas para este tipo de situação,
são ferramentas preciosas para ocasiões como estas.
O grupo de professores respondeu,
brincando nos jogos propostos, sobre o lugar tradicional (diria eu, conservador)
do corpo nas aprendizagens escolares, e o pouco trabalho intencional realizado com
o tema da sexualidade naquela comunidade escolar.
II.
II.
Sim, embora este tema seja obrigatoriedade
curricular, presente nos Parâmetros Curriculares Nacionais desde o século
passado, atualmente nesta comunidade, e em tantas outras do estado e do país, ainda
não se desenvolve nenhum trabalho sistemático.
Após o estabelecimento de um
clima agradável e de confiança entre os participantes do curso, as questões dos
educadores começaram a surgir mais claramente, em especial no período da tarde.
O contemporâneo se desenhava, na mediação entre as necessidades evidenciadas naquela
realidade específica e o conhecimento acadêmico que eu dispunha, construído ao
longo de quase trinta anos de atividade profissional com o corpo e que se
renovava naquela experiência.
No segundo momento busquei responder
aos desafios que os professores me trouxeram e apontar perspectivas de ação. Refletimos
sobre os conhecimentos que recheavam nosso encontro, vivenciamos exemplos
concretos de atividades possíveis de serem reproduzidas com grupos de alunos, comentamos
algumas dicas facilitadoras para um trabalho com crianças e adolescentes, entre
outros.
Além da abordagem teórica prático
da oficina, eu fiz questão de apresentar o trabalho de Marcos Ribeiro. Ele é,
para mim, a maior referência em educação sexual no Brasil. Sua obra é
direcionada ora para crianças ora para educadores, e reúne importantes (e
complexos!) temas da atualidade, sempre em linguagem fácil e acessível. Revelação:
seus livros são grande fonte de inspiração ao meu trabalho!
O dia foi pouco para o tanto que foi
trazido. O dia foi muito para o impacto produzido. As vivências e os conhecimentos sacudiram
valores arraigados relativos ao corpo e à sexualidade. Hoje tenho certeza de que professores já experimentam e inovam na
perspectiva do corpo e do movimento em suas salas de aula. Ainda há muito a ser
feito, mas precisamos da ação do tempo para que as novidades se acomodem
internamente e prossigam como processo de evolução.
III.
III.
A partir deste trabalho de formação
voltada para a qualificação e atualização de professores, abordando a corporeidade
e a sexualidade, novamente senti a necessidade de possibilitar a
continuidade e a multiplicação deste conhecimento, e de subsidiar profissionais
motivados com experiências e materiais. Conheço as dificuldades, disponho de bagagem
e recursos, constato a sede por conhecimento de professores para prosseguirem seguros
em suas trajetórias. Fui desafiada a retomar este tema para além do ambiente da
universidade. Preciso fazer algo! E por aqui começo uma nova caminhada.
É assim que este espaço de interação sobre o corpo e a sexualidade no ambiente escolar foi
criado, somando-se aos cursos e oficinas que venho realizando.
Obrigada professoras e
professores de São Nicolau! Grande abraço!
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