quinta-feira, 28 de novembro de 2013

Corporeidade e sexualidade: desafios contemporâneos

            I.

Este foi o tema de uma formação voltada para a qualificação e atualização de professores coordenada por mim, em julho de 2013, no Município de São Nicolau, Rio Grande do Sul, fronteira com a Argentina.
O Município de São Nicolau, primeira querência missioneira da banda oriental do estado, distantes nove horas do meu dia a dia na Universidade, possui aproximadamente sete mil habitantes. E foi no recesso escolar (do meio do ano) que professores se reuniram a fim de repensar a prática docente, na constante busca de qualificação dos seus trabalhos.
Minhas questões surgiram já de imediato ao convite. Quais os desafios que a comunidade de São Nicolau poderia ter sobre o tema corporeidade? E sobre sexualidade? O que a escola, direção e professores esperavam de mim? Como os alunos e familiares seriam impactados positivamente com o meu trabalho naquela formação? A provocação estava feita!
Meu primeiro passo foi identificar as características sociais e culturais mais marcantes da região relativos ao tema. Ou seja, tentar responder previamente as seguintes indagações:
- Quais os principais hábitos e valores relacionados às vivências corporais desta comunidade?
- Como esta comunidade se relaciona com os assuntos globais e nacionais relativos ao tema corpo e sexualidade?
- Quais os reais conhecimentos sobre a temática e como eles se articulam com o conjunto de valores e práticas educacionais vividas no dia a dia?
As primeiras duas respostas, consegui através da internet e por contatos informais com pessoas da região. A terceira eu busquei, no início da oficina, através de dinâmicas e jogos corporais descontraídos e eficientes. Atividades de recreação, presentes em currículos de Licenciatura em Educação Física e propositalmente adaptadas para este tipo de situação, são ferramentas preciosas para ocasiões como estas.
O grupo de professores respondeu, brincando nos jogos propostos, sobre o lugar tradicional (diria eu, conservador) do corpo nas aprendizagens escolares, e o pouco trabalho intencional realizado com o tema da sexualidade naquela comunidade escolar.  

II.
Sim, embora este tema seja obrigatoriedade curricular, presente nos Parâmetros Curriculares Nacionais desde o século passado, atualmente nesta comunidade, e em tantas outras do estado e do país, ainda não se desenvolve nenhum trabalho sistemático.
Após o estabelecimento de um clima agradável e de confiança entre os participantes do curso, as questões dos educadores começaram a surgir mais claramente, em especial no período da tarde. O contemporâneo se desenhava, na mediação entre as necessidades evidenciadas naquela realidade específica e o conhecimento acadêmico que eu dispunha, construído ao longo de quase trinta anos de atividade profissional com o corpo e que se renovava naquela experiência.
No segundo momento busquei responder aos desafios que os professores me trouxeram e apontar perspectivas de ação. Refletimos sobre os conhecimentos que recheavam nosso encontro, vivenciamos exemplos concretos de atividades possíveis de serem reproduzidas com grupos de alunos, comentamos algumas dicas facilitadoras para um trabalho com crianças e adolescentes, entre outros.
Além da abordagem teórica prático da oficina, eu fiz questão de apresentar o trabalho de Marcos Ribeiro. Ele é, para mim, a maior referência em educação sexual no Brasil. Sua obra é direcionada ora para crianças ora para educadores, e reúne importantes (e complexos!) temas da atualidade, sempre em linguagem fácil e acessível. Revelação: seus livros são grande fonte de inspiração ao meu trabalho!
O dia foi pouco para o tanto que foi trazido. O dia foi muito para o impacto produzido. As vivências e os conhecimentos sacudiram valores arraigados relativos ao corpo e à sexualidade. Hoje tenho certeza de que professores já experimentam e inovam na perspectiva do corpo e do movimento em suas salas de aula. Ainda há muito a ser feito, mas precisamos da ação do tempo para que as novidades se acomodem internamente e prossigam como processo de evolução. 

III.
A partir deste trabalho de formação voltada para a qualificação e atualização de professores, abordando a corporeidade e a sexualidade, novamente senti a necessidade de possibilitar a continuidade e a multiplicação deste conhecimento, e de subsidiar profissionais motivados com experiências e materiais. Conheço as dificuldades, disponho de bagagem e recursos, constato a sede por conhecimento de professores para prosseguirem seguros em suas trajetórias. Fui desafiada a retomar este tema para além do ambiente da universidade. Preciso fazer algo! E por aqui começo uma nova caminhada.
É assim que este espaço de interação sobre o corpo e a sexualidade no ambiente escolar foi criado, somando-se aos  cursos e oficinas que venho realizando.
Obrigada professoras e professores de São Nicolau! Grande abraço!

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