terça-feira, 3 de dezembro de 2013

Recortes culturais


Conhecer o ambiente antes de iniciar o trabalho com sexualidade.
       
O início de todo e qualquer trabalho educativo é marcado pelo estudo das características sociais e culturais do grupo com o qual iremos trabalhar. Costumo dizer que o primeiro passo é reunir o maior número possível de informações sobre o contexto educativo. E em se tratando de corpo e sexualidade, o conjunto das informações obtidas previamente poderá ser decisivo para o sucesso do trabalho em educação sexual. Quanto mais ampla for a pesquisa, melhores serão as condições para a nossa análise. Nossa busca inclui dados de caráter social, cultural, afetivo, econômico, religioso, histórico, climático etc.

É preciso destacar que informações tomadas isoladamente assumem característica de curiosidade invasiva, ou dito de outra forma, de fofoca. Por isso enfatizamos que a realização deste diagnóstico não se propõe, de maneira alguma, a fofocar sobre a vida alheia. A ideia proposta é usar o conjunto de conhecimentos sobre determinado grupo, reflexivamente, para possibilitar maior acolhimento aos alunos, às suas respostas, às suas crenças e aos seus comportamentos. Uma compreensão expandida sobre a vida dos indivíduos e do grupo com que iremos trabalhar minimiza situações embaraçosas para o educador.

Então, iniciaremos o trabalho de educação sexual procurando responder antecipadamente:
- Quais os principais hábitos e valores relacionados às vivências corporais desta comunidade?
- Como eles foram estabelecidos?
- Quais as principais influências no comportamento relativo ao corpo e a sexualidade que recebem as pessoas deste grupo social?
- Como esta comunidade se relaciona com os assuntos nacionais e globais relativos ao tema corpo e sexualidade?
- Quais os desafios que este grupo me traz?
- Em que o meu trabalho irá impactar e melhorar a vida dos meus alunos?
- Como os familiares serão impactados positivamente com o meu trabalho?
- Quais os reais conhecimentos sobre o corpo e a sexualidade que eles têm?

Muitas destas questões poderão ser respondidas através de conversas informais no grupo social, ou observações e escuta atenta sobre o modo de vida dos alunos em lugares públicos frequentados pela comunidade - igrejas, praças, bares, mercados e etc. Às vezes um rápido passeio na comunidade, com conversas breves e despretensiosas, ajuda muito. Costumo preferir a informalidade do passeio à formalidade de uma entrevista com a família.  

A investigação prévia é fundamental. Mas nem sempre ela é suficiente. Muitas serão as ocasiões em que o professor necessitará complementá-la diretamente com os alunos. E isto pode ser feito no início do trabalho educativo, através de dinâmicas e jogos corporais descontraídas e eficientes.

Por fim, destaco a conveniência da investigação previa ser atualizada ao longo do processo educativo, incrementada e modificada sempre que seja necessário. Assim dito, sempre que pensarmos em inovar ou ampliar significativamente o impacto do nosso trabalho, nós devemos dirigir o olhar, com o máximo de atenção, para as características da comunidade além do contato direto com os alunos no ambiente escolar.   



quinta-feira, 28 de novembro de 2013

Corporeidade e sexualidade: desafios contemporâneos

            I.

Este foi o tema de uma formação voltada para a qualificação e atualização de professores coordenada por mim, em julho de 2013, no Município de São Nicolau, Rio Grande do Sul, fronteira com a Argentina.
O Município de São Nicolau, primeira querência missioneira da banda oriental do estado, distantes nove horas do meu dia a dia na Universidade, possui aproximadamente sete mil habitantes. E foi no recesso escolar (do meio do ano) que professores se reuniram a fim de repensar a prática docente, na constante busca de qualificação dos seus trabalhos.
Minhas questões surgiram já de imediato ao convite. Quais os desafios que a comunidade de São Nicolau poderia ter sobre o tema corporeidade? E sobre sexualidade? O que a escola, direção e professores esperavam de mim? Como os alunos e familiares seriam impactados positivamente com o meu trabalho naquela formação? A provocação estava feita!
Meu primeiro passo foi identificar as características sociais e culturais mais marcantes da região relativos ao tema. Ou seja, tentar responder previamente as seguintes indagações:
- Quais os principais hábitos e valores relacionados às vivências corporais desta comunidade?
- Como esta comunidade se relaciona com os assuntos globais e nacionais relativos ao tema corpo e sexualidade?
- Quais os reais conhecimentos sobre a temática e como eles se articulam com o conjunto de valores e práticas educacionais vividas no dia a dia?
As primeiras duas respostas, consegui através da internet e por contatos informais com pessoas da região. A terceira eu busquei, no início da oficina, através de dinâmicas e jogos corporais descontraídos e eficientes. Atividades de recreação, presentes em currículos de Licenciatura em Educação Física e propositalmente adaptadas para este tipo de situação, são ferramentas preciosas para ocasiões como estas.
O grupo de professores respondeu, brincando nos jogos propostos, sobre o lugar tradicional (diria eu, conservador) do corpo nas aprendizagens escolares, e o pouco trabalho intencional realizado com o tema da sexualidade naquela comunidade escolar.  

II.
Sim, embora este tema seja obrigatoriedade curricular, presente nos Parâmetros Curriculares Nacionais desde o século passado, atualmente nesta comunidade, e em tantas outras do estado e do país, ainda não se desenvolve nenhum trabalho sistemático.
Após o estabelecimento de um clima agradável e de confiança entre os participantes do curso, as questões dos educadores começaram a surgir mais claramente, em especial no período da tarde. O contemporâneo se desenhava, na mediação entre as necessidades evidenciadas naquela realidade específica e o conhecimento acadêmico que eu dispunha, construído ao longo de quase trinta anos de atividade profissional com o corpo e que se renovava naquela experiência.
No segundo momento busquei responder aos desafios que os professores me trouxeram e apontar perspectivas de ação. Refletimos sobre os conhecimentos que recheavam nosso encontro, vivenciamos exemplos concretos de atividades possíveis de serem reproduzidas com grupos de alunos, comentamos algumas dicas facilitadoras para um trabalho com crianças e adolescentes, entre outros.
Além da abordagem teórica prático da oficina, eu fiz questão de apresentar o trabalho de Marcos Ribeiro. Ele é, para mim, a maior referência em educação sexual no Brasil. Sua obra é direcionada ora para crianças ora para educadores, e reúne importantes (e complexos!) temas da atualidade, sempre em linguagem fácil e acessível. Revelação: seus livros são grande fonte de inspiração ao meu trabalho!
O dia foi pouco para o tanto que foi trazido. O dia foi muito para o impacto produzido. As vivências e os conhecimentos sacudiram valores arraigados relativos ao corpo e à sexualidade. Hoje tenho certeza de que professores já experimentam e inovam na perspectiva do corpo e do movimento em suas salas de aula. Ainda há muito a ser feito, mas precisamos da ação do tempo para que as novidades se acomodem internamente e prossigam como processo de evolução. 

III.
A partir deste trabalho de formação voltada para a qualificação e atualização de professores, abordando a corporeidade e a sexualidade, novamente senti a necessidade de possibilitar a continuidade e a multiplicação deste conhecimento, e de subsidiar profissionais motivados com experiências e materiais. Conheço as dificuldades, disponho de bagagem e recursos, constato a sede por conhecimento de professores para prosseguirem seguros em suas trajetórias. Fui desafiada a retomar este tema para além do ambiente da universidade. Preciso fazer algo! E por aqui começo uma nova caminhada.
É assim que este espaço de interação sobre o corpo e a sexualidade no ambiente escolar foi criado, somando-se aos  cursos e oficinas que venho realizando.
Obrigada professoras e professores de São Nicolau! Grande abraço!